domingo, 5 de julho de 2015

A Saúde do Trabalhador

            A saúde do trabalhador, que é mental, emocional e viceral ─ devido a vários fatores ─, vem sendo abalada pelo ciclo da psicopatologia. Esse é, nessa ordem, formado por relações de dupla mão entre os seguintes elementos: pressão, tensão, ansiedade, conflito, fadiga, estresse, dor, sofrimento, patologia e psicopatologia. E, o que é pior ─ via de regra ─, esses males estão sendo combatidos por dois contraproducentes instrumentos: medicamentos e o ato de ignorá-los.

            Como causa dessas mazelas, Guimarães (2010) aponta a primazia do paradigma cartesiano. Nesse, leis rígidas e determinantes regem a natureza, sendo o humano regido pelo livre arbítrio. Todavia, muitas ciências humanas e organizações incorporaram esse determinismo. Dessa forma, o mesmo padrão de pensar/sentir/agir é para todos generalizado. Compete-se pelo igual, não no sentido de inovação, criação e autonomia, mas sim de forma mecânica, por meio de modismos, com conseqüente despersonalização. Assim, a convivência saudável e respeitosa foi substituída pela “sobrevivência sofisticada pela capa da competitividade” (GUIMARÃES, 2010, p. 54), num processo cada vez mais intenso de “corrupção da vida interpessoal” (Ibidem).

            A solução apresentada se baseia em dois constructos: o lúdico e o paradigma sistêmico (também denominado holístico).

            O lúdico, inicialmente associado apenas ao jogo imaginativo, tem seu raio de abrangência ampliado. Representa ele a imaginação/pensamento/sentimento/ação criativa, renovadora, realizadora. O próprio processo lúdico é o que traz satisfação (sendo o fator motivacional de Herzberg, a auto-realização de Maslow e o crescimento de Alderfer), significando reais “momentos de vida” (Ibidem, p. 51).

            O paradigma sistêmico se contrapõe ao cartesiano. Enquanto esse apregoa o determinismo, o individualismo, o isolamento, a massificação  e o mecanicismo, o holístico enfatiza o relativismo, a contingência, a conectividade, a interatividade e a singularidade.

            O paradoxo do presente tempo reside no fato de se exigir, através de métodos cartesiano, resultados que só podem ser alcançados com o lúdico e se pautando pelo paradigma sistêmico. Como nunca ─ para conviver e até sobreviver ─, as organizações necessitam da criatividade e da inovação. Isso porque padrões pré-estabelecidos são ineficazes devido às excessivamente rápidas transformações sociais. O importante, como destacado por Beirão (2008), é “dominar o desconhecido”, o processo de criar e de conhecer. Todavia ─ equivocadamente ─, recorrem a mecanismos que exacerbam desumana competitividade e acabam se centrando no curto prazo.

            Como soluções, no campo concreto ─ na esfera individual ─, propõe-se a fórmula do autoconhecimento. Somente ela poderia quebrar o já citado ciclo da psicopatologia. Somente ela poderia mudar a triste realidade que também Gandhi retratou: “A máquina ganhou as pessoas, e as pessoas se fazem máquinas: funcionam e não vivem mais”.

            Na esfera organizacional, Guimarães (2010) apresenta duas soluções: compreensão da dimensão humana e gerenciamento do estresse.

            Essa compreensão implica em a organização reconhecer-se como humana, e isso equivale a reconhecer como humanos os indivíduos e as relações que a constituem. Nesse processo ─ forçosamente ─, terá de reconhecer a singularidade e a complexidade de cada indivíduo, abandonando a visão simplista e arcaica que o encara como “máquina reprodutora de idéias” ou “depositório de comandos operacionais” (Ibidem, p. 55). Para fazer isso ─ num exercício empático ─,  organização precisa perceber que o indivíduo, nos seus diferentes níveis (individual, grupal e sócio organizacional), forma-se e se desenvolve não apenas o espaço de trabalho, mas também ─ e, talvez, principalmente ─, no espaço familiar e no estudantil/acadêmico.

            No que se refere ao estresse, a autora destaca que, de sinal que servia para informar que algo está errado, passou ele a companheiro de todas as horas. O anormal é não ter estresse. Ressalta outro absurdo: que, em alguns casos, o estresse é tido como motivador. Para que esse gerenciamento efetivamente ocorra, o planejamento estratégico, fundado em eficaz diagnóstico organizacional, deve criar mecanismos que concretizem a missão organizacional. Esse processo, é claro, equivale à formulação de valores viáveis e condizentes, simultaneamente, com a missão e com as aspirações individuais.

            Em síntese, pode-se afirmar que ─ para que haja uma real saúde do trabalhador ─, do ponto de vista individual, é preciso debruçar-se sobre o auto-conhecimento, no fito de se quebrar o ciclo da psicopatologia; do ponto de vista organizacional, é preciso investir na ludicidade e na adoção do paradigma  holístico, e isso deve ser feito por meio da implementação de eficaz gerenciamento de estresse e pela tentativa de se compreender a dimensão humana.

REFERÊNCIAS:

BEIRÃO, Paulo Sérgio Lacerda. A importância da iniciação científica para o aluno de graduação. Coordenação de Pesquisa ─ PROPEX/UFCG. Campina Grande, 13 mar. 2011. Disponível em: <http://www.pibic.ufcg.edu.br/apresentacao.html>. Acesso em: 16 mar. 2011.

GUIMARAES, Elidihara Trigueiro. Disciplina Psicologia Organizacional. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.





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