A Burocracia, como todos os sistemas
criados pelo homem para normatizar relações, não nasceu do nada, num passe de
mágica. Pode-se afirmar que a burocratização é concomitante ao processo; desde que esse se tornou
necessário para se padronizar formalmente procedimentos, foi lançada a semente
dessa forma de operacionalizar a máquina estatal.
Por
isso, é sempre vista nas complexas e centralizadas organizações. Os Impérios da
Antiguidade tinham seus escribas e publicanos, como hoje há os técnicos públicos e os auditores. Sempre, nos estados
soberanos, houve uma estrutura hierarquizada que visava a manutenção do vigente
status quo. É verdade que, antes,
esta estrutura não era impessoal. A prebenda, a corrupção, a inexistência da
coisa pública e da pessoalidade impediam a ocorrência do que hoje se denomina
Burocracia. Todavia, é-se compelido a considerar que – mesmo no sistema patrimonialista, que predominou por
milênios – havia um processo de burocratização. Observe-se que, aqui –
adotando-se a ideia de Lefort (1971) –, Burocracia é diferente de processo de burocratização.
Weber
descreveu a Burocracia que via se
erigir, juntamente com o Capitalismo, perante os seus olhos. Marx, na sua
militância, na sua teoria nunca desvinculada da prática, criticou essa descrição, que, segundo ele, não revelava as reais
motivações desse instrumento governamental. Para Marx, o maior erro de Weber
foi adotar para si a visão que a Burocracia tinha de si mesma (LEFORT, 1971).
Assim, Weber elencou as qualidades desse sistema administrativo, comparando-o
com o degradado esquife patrimonialista, que não mais atendia às exigências da
nova classe dominante: a burguesia. O sistema anterior era baseado no
favoritismo, na exacerbação das sinecuras, na inexistência do mérito, na informalidade
irresponsável, na subordinação ao capricho, na parcialidade; o Burocrático, no
mérito, na competência, na profissionalização, no tecnicismo, na
impessoalidade, no formalismo. E, de certa forma, Weber estava certo nessa
comparação: a Burocracia, frente ao Patrimonialismo, é um grande avanço.
Marx,
porém – ao buscar as motivações do sistema –, vai mais além. Destaca que, na
verdade, a Burocracia é – e afirma que sempre foi (nessa assertiva fica claro
que, para ele, o regime da eficiência se
confunde com o Patrimonialismo quando se considera não a sua estrutura, mas sim
o seu objetivo, a sua motivação) – um instrumento de dominação da classe
dominante. Não é ela (a burocracia) uma classe, uma força econômica. É,
literalmente, uma máquina, um mero instrumento, que servirá, com a eficiência
que lhe é característica, à classe que, legítima ou ilegitimamente, galgar os
degraus do poder. Quando se observa os passos dos povos ao longo da história,
verifica-se que os que – pela força das armas ou do ouro – conquistam ou
usurpam o poder se utilizam, em grande parte – para manter o seu poderio –, da
máquina estatal dos vencidos.
Logo
– no que se refere aos objetivos –, a Burocracia é idêntica ao sistema que a
precedeu. No que se refere à forma de alcançar esse objetivo, representa
considerável avanço.
Feita
essa introdução sobre a Burocracia, é preciso definir a sua amplitude, no
âmbito do pensamento aqui defendido. Aqui, ela é a estrutura (constituída de
pessoas, de equipamentos, de procedimentos, de normas) que viabiliza o alcance
das finalidades de dada instituição. Assim, há Burocracia em toda e qualquer
iniciativa coletiva organizada, seja pública ou particular. Essa é a idéia
defendida por Lefort (1971), ao sopesar os pensamentos de Marx, Weber e Lenin.
Assim – por ser, por sua natureza, um instrumento impessoal –, adequa-se a
qualquer fim, da mesma forma que uma faca é um instrumento de morte nas mãos de
um assassino e de vida nas de um médico.
É
necessário trazer essas considerações para os tempos de hoje.
Não
era possível ao capital estender sua dominação sem um arcabouço tecnicista
eficiente. E a Burocracia descrita por Weber se prestou bem a esse papel. Todavia,
os tempos mudaram. Antes – por meio de rígidas estruturas –, era possível (na
verdade, era a única forma viável) alavancar o crescimento do voraz
Capitalismo. Isso porque, na realidade, essa evolução era quantitativa. Havia
muitos mercados inexplorados. Bastava conquistá-los. A Primeira Guerra Mundial
foi fruto dessa luta. Assim como a Segunda. No intervalo entre as duas –
contudo –, um evento trágico veio a mudar, drasticamente – numa ruptura –, a
história da humanidade: a Grande Depressão, de 1929. Essa foi a primeira grande
crise do Capitalismo. Antes, a preocupação das empresas (e consequentemente dos
Estados, que são os seus representantes) era produzir cada vez mais, pois o que
fosse produzido seria consumido; a oferta gerava sua própria demanda, como
apregoou Say. A grande crise da oferta, porém, abriu, com a força da catástrofe,
os olhos dos grandes empreendedores. Os
mercados estavam saturados. A demanda não mais era infinita. A partir desse
momento, houve uma inversão da Lei de Say; agora, a demanda é que deveria
determinar a oferta. E Keynes sistematizou bem essa ideia, lançando fundo as
raízes da macroeconomia, que, hoje, determina o futuro das nações.
E
qual a relação disso com a Burocracia?
As
relações sócio-econômico-institucionais ficaram bem mais dinâmicas. Modelos
estanques não mais se prestavam a atender as demandas das diversas classes e
instituições. Por isso, surgiram os modelos dinâmicos. Percebeu-se que o controle não mais era a regra, mais sim
a adaptação. No campo da
Administração, a Teoria da Contingência foi a que melhor retratou essa
realidade, ao afirmar que tudo “depende” e que o ambiente externo era a
variável independente, o interno, a dependente, numa relação de “se então”,
contrapondo-se à de causa e efeito. O mecanicismo
– que prima pela estanque burocracia – deu lugar ao organicismo.
Nesse
ponto, surge o modelo gerencial (não
será aqui descrito porque esse não é o objetivo destas linhas), dinamizando a
administração pública. Morreu, então, a Burocracia, porque caduca, seguindo os
passos do Patrimonialismo? No sentido que Weber confere a esse termo – que é o
mesmo adotado por Préve (2012, p. 14): (...) organizações de base mecanicista,
(...), divisão do trabalho, decisões centralizadas e hierarquia definida, se
caracterizam pelo cunho altamente formal –, pode-se dizer que está morrendo e
que, futuramente, terá o mesmo destino do sistema da prebenda. No de Marx,
contudo – por ser entendida como instrumento-meio através do qual as classes
dominantes mantêm o status quo –, existirá enquanto existir a luta de classes;
noutras palavras, subsistirá até a instituição da Comuna.
Por
fim, destaca-se o fato de que um mesmo conceito pode ser analisado por diversos
ângulos. E todos esses acabam por enriquecer o debate e, consequentemente, a
compreensão. No presente caso, Weber esclarece a estrutura necessária ao
desenvolvimento, pelo menos na época, do Capitalismo. Já Marx explicita as
motivações, numa análise histórica, da Burocracia. Ambos trouxeram sua
contribuição e ajudaram a humanidade a melhor entender e desenvolver os
mecanismos que ela cria para se autogerir.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
LEFORT, Claude. Eléments dune critique de la burocratie. Ginebra:
Droz,1971
PRÉVE, Altamiro
Damian. OSM – Organização, Sistemas e
Métodos. Santa Catarina: UFSC, 2008.
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