Os conceitos de cultura nacional e identidade nacional, em Antropologia, não são coisas
(algo já construído e acabado, sendo, assim, estanque). Pelo contrário,
são extremamente dinâmicos, sendo um constante vir a ser. A
caracterização mais exata desses conceitos é o fato de,
antropologicamente, serem considerados relações (GUIMARÃES, 2010).
A cultura nacional, segundo Hall (1999 apud SIQUEIRA, 2007), caracteriza-se por apresentar três elementos inafastáveis: memórias do passado, bem representadas pela tradição; o desejo de viver em conjunto; e a perpetuação da herança. Esses elementos, conforme o mesmo autor e a mesma obra, são identificados quando se observa as instituições, as representações e os símbolos.
Buscando sintetizar todo o processo, gênese e manutenção de uma
cultura nacional, Hall (1999 apud SIQUEIRA, 2007) afirma que a cultura
nacional é um discurso, sendo esse um modo de construir sentidos, de organizar as ações individuais e coletivas e de se enxergar a si mesmo.
Guimarães (2010) acrescenta que a cultura nacional é imprescindível à
formação da identidade nacional. Não se pode esquecer, porém, que não há
consenso quanto à existência de uma cultura nacional. Renan (1982, apud
SCHNEIDER, 2004) afirma que, pela grande diversidade e pela falta de
unidade entre os diversos grupos e etnias que formam uma nação, não há
que se falar em “uma” cultura nacional.
Há, conforme Guimarães (2010), cinco tipos de identidade: nacional, que será o principal objeto do presente esboço; pessoal, que é a que cada um atribui a si mesmo; cultural, sendo a relativa às práticas culturais; social, que se relaciona à questões específicas do grupo ao qual se liga mais intimamente pelo sentimento de pertença; e a étnica, sendo essa formada com base na identidade contrastiva,
de Oliveira (1976 apud GUIMARÃES, 2010), que é o processo de formação
da identidade fundado no contraste – e até negação – do outro. O processo de formação da identidade, qualquer que seja ela, tem como cerne central a diferenciação que se faz em relação ao outro. É se diferenciando que se se identifica. Essa identificação é precisamente o reconhecimento das diversidades. E essas são, segundo a UNESCO (2001), tão necessárias ao gênero humano, quanto a diferenciação biológica o é para a natureza.
No que se refere à identidade nacional, houve – no campo da Antropologia –, durante um certo tempo, uma grande dificuldade no que se refere à metodologia de estudo a ser empregada (SCHNEIDER, 2004). O método antropológico, baseando na pesquisa de campo e na observação participante,
parecia inadequado à apreensão de características culturais de grande
magnitude, como é caso das nações. E estudar uma fatia dessa nação para,
posteriormente – através do método indutivo –, generalizar conclusões,
seria uma hipersimplificação que em nada ajudaria num real diagnóstico
do que deveria ser considerado identidade nacional. Esse impasse,
todavia, foi resolvido quando se percebeu que não se deveria, para se
identificar uma identidade nacional, focar o conteúdo cultural, mas sim o processo político e histórico
– que ocorre nas relações – formador e mantenedor da própria cultura e
da identidade das nações. A partir desse ponto, percebeu-se que a
identidade nacional é uma categoria cultural básica, como o são os laços de parentesco e a religião (ANDERSON, 1991 apud SCHNEIDER, 2004). Com isso, é claro, não se quer dizer que cultura, território e história não são fundamentais a esse estudo; todavia, não são suficientes, sendo, ademais, produtos; a causa, a gênese da identidade nacional reside no citado processo.
A identidade nacional brasileira
é bem peculiar. O Brasil é fruto de intensa miscigenação entre
praticamente todos os continentes e todas as raças. Nas veias do
brasileiro, corre o sangue europeu, o africano, o americano e o asiático, assim como o do branco, o do negro, o do índio e o do amarelo.
E essa miscigenação não é apenas biológica, é também – e principalmente
– cultural. O território brasileiro é um espaço amplamente aberto a
qualquer cultura. Isso fica bem claro quando se observa o seu projeto de construção que, na visão de Schneider (2004), é democrático, descomplicado e não problemático.
Há dois elementos centrais para a construção de uma identidade nacional.
O primeiro é a declaração de pretencimento.
Essa é o ato ou idéia que determina a nacionalidade. No Brasil, o
critério formal para a qualificação de um brasileiro nato é o jus solis.
Em regra, basta nascer no território brasileiro, para ser considerado
brasileiro nato. Essa é uma regra mais inclusiva; basta nascer no país e
– por consequência – participar do projeto nacional, para que esse
aceite o indivíduo. Já na Alemanha, é o jus sanguinis. É
alemão apenas quem tem sangue de descendente alemão. Não adianta apenas
nascer lá e/ou participar da construção do país. Por mais que indivíduo
se esforce, por mais que ele traga grandes contribuições à Alemanha,
não será considerado alemão.
O segundo é o argumento que justifica essa declaração. No Brasil, essa declaração é considerada ativa.
Quando entrevistado (SCHNEIDER, 2004), o brasileiro afirma que é
brasileiro por nascer no Brasil e por se identificar com o Brasil. Já o
alemão, afirma que é alemão porque tem o sangue alemão. Assim, essa
forma é considerada passiva.
A imagem que o Brasil faz de si mesmo (SCHNEIDER, 2004) é a de uma nação extremamente heterogênea e tolerante com a diversidade, cheia de criatividade e alegria e que prima pela paz. Em relação a essa última qualidade, é ela erigida à condição de símbolo nacional.
Schneider (2004) identificou, no Brasil, dois modelos de imagem nacional.
O primeiro é o carioca. Esse considera a identidade nacional como uma mistura de todas as etnias, raças, povos e culturas que constituem a nação brasileira. A identidade brasileira seria uma convergência das diferenças, seria um amálgama.
O segundo é o paulista. Esse considera a identidade nacional como uma “salada”
(na mistura, as diferenças se entrelaçam, formando algo novo; na
“salada”, elas se preservam, e passam apenas a coexistir, na interação).
Assim, a identidade brasileira seria uma preservação das diferenças.
Posto isso, verifica-se que, no Brasil, há um grande respeito pela diversidade cultural, sendo essa elevada à condição de símbolo nacional.
Isso
é facilmente verificado quando se observa o cotidiano. Em regra,
evangélicos, católicos, espíritas e toda sorte de denominações
religiosas, convivem pacificamente, ao contrário do que se observa nos
países do oriente médio. Não há ostensivos conflitos étnicos ou raciais.
Em geral, onde quer que se passe, o ambiente é de aceitação e
aproximação. É como se, em praticamente todas as portas – dos estados,
das cidades e dos lares – estivem grafadas, com as cores do sentimento, a
agradável inscrição: “Sejam bem vindos”.
Assim
sendo, devem os brasileiros – e com razão – orgulharem-se da identidade
nacional que eles construíram. Todavia, não podem – à semelhança de
Narciso – estagnarem nessa admiração. Devem buscar aprimorá-la
conscientemente, no fito de incorporarem outros benéficos valores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GUIMARAES, Elhidiara Trigueiro. Disciplina Seminário Temático II: Antropologia. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.
SCHNEIDER, Jens. Discursos simbólicos e símbolos discursivos: considerações sobre a etnografia da identidade nacional. S.l. 2004. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-93132004000100004&script=sci_arttext&tlng=es> Acesso em: 15 nov. 2011.
SIQUEIRA, Euler David. Antropologia: uma introdução. S.l. Sistema Universidade Aberta do Brasil, 2007.
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