segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Relações e Diferenças em Antropologia

A Antropologia se ocupa, nos dias de hoje, exatamente com o estudo das relações entre as diferenças. Assim, não visa ela gestar e/ou apreender um homem uno, mas um particionado.

Não foca as semelhanças, o que todos os homens têm em comum, como antes foi feito (e ainda é) pela Filosofia. Como afirma Laplantine (2003) – em digressão sobre a evolução do pensamento do homem sobre o homem –, a visão antológica de São Tomaz, a reflexiva de Descartes, a criticista de kant  e a histórica de Hegel sempre buscaram padronizar o homem, buscando intensamente as semelhanças entre as pessoas.

Nunca se pensou em pensar cientificamente a diferença e, o que é mais importante, as relações entre as diferenças. Noutras palavras, não busca a Antropologia criar um protótipo de homem, que será, fatalmente – segundo o pensamento antropológico –, uma visão reducionista da realidade; foca ela as diferenças (afirma que o que há em comum entre as pessoas é precisamente o fato de todas serem diferentes, de cada qual ser singular) que caracterizam as pessoas e, por consequência, as culturas e sociedades, que são as mais complexas criações do homem.

É importante destacar, entretanto, que esse estudo ocorre em quatro níveis de relações, que se diferenciam em seus objetos e em sua amplitude (GUIMARÃES, 2010). O primeiro é o entre indivíduos. Aqui, o foco é mais restrito e o viés mais psicológico. O segundo é do homem com a sua cultura. Nesse, há maior amplitude, e o movimento de análise parte do particular para o geral e do geral para o particular. Além disso, utiliza-se mais da Etnologia, na busca do símbolo que permitirá a análise da cultura estudada. É importante destacar que, em Antropologia, qualquer análise só ocorre nas relações. O terceiro é o entre culturas. Aqui, atua diretamente a Antropologia, apropriando-se das informações fornecidas pela Etnografia e pela Etnologia. Por fim, o quarto é da cultura com o meio ambiente. Nesse, apreende-se as relações existentes entre a cultura e o ambiente no qual ela é gestada e alimentada.

Por qual processo a Antropologia busca apreender as relações existentes entre homem, cultura, ambiente? Por meio do estudo comparativo. Foi esse que permitiu que fosse desenvolvido o conceito de alteridade. Não se consegue enxergar – com a imparcialidade e completude necessárias – uma realidade humana, uma sociedade, uma cultura, um modo de vida, quando se está inserido nele, quando nele se foi gestado e alimentado. Uma visão a mais próxima possível do real só é possível quando o olhar que é utilizado é externo. É por isso que a Antropologia, como afirma Laplantine (2003), adota como princípio metodológico o surpreender-se com o que é familiar e tornar familiar o que é estranho. Para isso, é preciso apropriar-se de vários olhares e, feito isso, utilizá-los. E é isso que faz a Antropologia nas três etapas que constituem o seu método.

Primeiro, através, em regra, da pesquisa de campo, debruça-se sobre outra realidade, colhendo, com a máxima riqueza de detalhes, a cultura do outro, os fatos brutos, concretos, através dos quais essa de expressa. Essa fase é chamada de Etnografia.

Depois, esses dados, numa primeira análise, são interpretados. São, entre eles, estabelecidas as relações. Nessa etapa, são descobertos os símbolos. Nessa etapa, apropria-se do olhar do outro. Essa fase é denominada Etnologia.

Por fim, fechando o processo, de posse desse e de outros olhares, analisam-se e relacionam-se todas as sociedades objeto-sujeito desse estudo; noutras palavras, usam-se esses olhares. Aqui, no ápice do processo, tem-se a Antropologia.

Pois bem – como se vê –, a Antropologia consiste exatamente no estudo comparativo entre as relações que são apreendidas e interpretadas, respectivamente, pela Etnografia e pela Etnologia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GUIMARAES, Elhidiara Trigueiro. Disciplina Seminário Temático I: Antropologia. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.

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