A
efetiva participação da população nas decisões políticas seria o auge
positivo do processo político. Dallari (2004 apud ARAÚJO, 2010), para
reforçar o que foi dito, reafirma, com Aristóteles, que o homem é um animal político. Interpretando essa expressão, ele destaca que não é um animal que apenas vive, mas sim que, acima de tudo, convive.
Isso significa dizer que algumas de suas necessidades não podem ser
satisfeitas sem outros seres humanos. Naturalmente, a convivência é um
imperativo. E na convivência, devido à divergência de interesses, haverá
conflito.
Pois bem, a política é a forma pela qual o homem lida com o conflito
nascido da convivência. Até aqui, porém, nada afirma que esse processo
– a política – deva ser participativo.
Aqui
entra a ideia central, que versa sobre a natureza humana. Nesse ponto,
há duas concepções antagônicas. A primeira é a proposta por Hobbes,
para justificar o absolutismo. Segundo ela, o homem necessita delegar a
política ao soberano. Isso porque o homem, se entregue a si mesmo, tende
à destruição e à auto-destruição, voltando ao que ele denomina de estado de natureza. Nessa visão, a participação é nociva. Nessa visão, o homem não é um ser político.
A
segunda acepção apenas afirma que o ser humano necessita, como já dito –
para satisfazer suas necessidades psicológicas e afetivas –, de outros
seres humanos. Nesse ponto, todos são potencialmente iguais. Segundo Dallari (2004 apud ARAÚJO, 2010), a única forma de garantir essa igualdade seria por meio da participação efetiva
de todos no processo de mediação dos conflitos, tanto na sua formulação
quanto na sua manutenção e evolução. Isso quer dizer que o povo deve
participar da escolha do sistema político, da manutenção dele e da sua
evolução, caminhado para a democracia liberal – na classificação de Giddens (2005 apud BORBA, 2006) – ou para o comunismo, que seria, segundo Marx, citado por Borba (2006), a abolição das classes sociais e, consequentemente, do Estado.
Hoje,
o que se vê é um misto entre as duas concepções de ser humano, que se
refletem nas práticas políticas. Na maior parte de mundo (dois terços),
predomina a democracia. O outro terço é regido por sistemas totalitários
(BORBA, 2006). Nos ditos democráticos, a democracia não é plena. E isso
se deve à precária participação da população nas decisões políticas.
E
o que é participar? Bordenave (1994 apud ARAÚJO, 2010) afirma que há
três formas de participar: fazer parte, tomar parte e ter parte.
Fazer parte é uma forma de participação passiva. Consiste em simplesmente ser parte de um grupo, mas sem influenciar as tomadas de decisões.
Tomar parte é uma forma de participação ativa. Além de fazer parte, o indivíduo influencia as decisões do grupo no qual está inserido.
Ter parte é uma forma mais profunda de tomar parte. Como exemplo, há os acionistas de uma empresa e os chefes do executivo.
Feitas essas considerações sobre participação, pode-se agora responder à pergunta central: De que forma a participação pode contribuir para mudança nas formas personalistas de poder?
Formas personalistas de poder
são as em que o agente político (membro do executivo ou do legislativo)
toma uma obra ou feito coletivo, construído ou realizado pelo Estado,
como sendo obra sua. Isso, nos políticos brasileiros, é muito comum. É
comum ver-se, principalmente em campanhas eleitorais, o político afirmar
que construiu a estrada tal, o colégio x, o hospital y. Aqui, vale
mencionar poema de Bertold Brech:
QUEM FAZ A HISTÓRIA
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre consquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Fredrico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Pois
bem, qual processo social pode ajudar as nações a evitarem esse nocivo
personalismo político tão bem retratado (inclusive em sua fragilidade)
por Bertolt Brecht?
Araújo
(2010), no texto “Construção de Gestão Participativa”, expõe o caso
concreto de Santana do Acaraú, localizada no sertão cearense. Lá, foi
implementada a gestão participativa,
por meio do Conselhão. As demandas populares eram encaminhadas pelo
próprio povo. Isso causou conflito com o Legislativo. Nas palavras de
Araújo (2010):
“O
incentivo a demandas coletivas, através do Conselhão, alterou o
princípio de personalização de benfeitorias, antes atribuídas aos
vereadores, afirmando a concepção de que as políticas públicas não
constituem uma dádiva, mas um direito. É importante ressaltar que o
Conselhão revelou-se um lugar de construção de gestão participativa,
que conferia legitimidade ao Executivo local. No entanto, em algumas
situações, aparecia como uma força em concorrência com a Câmara de
Vereadores.”
Os benefícios não são apenas esses. Talvez, esses sequer sejam os principais. Essa gestão participativa gera um círculo virtuoso. Nas
palavras de Araújo (2010): “É como se houvesse um círculo virtuoso,
quanto mais o indivíduo participa, mais se sente compelido a
participar.”
E isso é um processo em cadeia, que irá ensinar a população a tomar parte em vez de apenas fazer parte.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAÚJO, Carlos Manta Pinto de. Disciplina Ciência Política. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.
BORBA, Julian. Ciência Política. Florianópolis: SEaD/UFSC, 2006.
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