Cada ciência humana é, em última análise, um olhar sobre
o homem e sua criação. Cada uma olha-o focando um aspecto. E esse olhar
é sempre diferenciado; não apenas pelo método, mas também por imposição
do próprio objeto alvo.
No caso da Antropologia, o olhar é viceral-global.
Vai ela, a um só tempo, ao íntimo do homem e a sua mais complexa
criação -- a sociedade --, relacionando-os. Esse olhar, porém, não é
esparso, fragmentado, exclusivamente cartesiano. É, acima de tudo, integrativo, como afirma Laplantine (2003).
Busca ela ver o global no viceral e o viceral no global. Isso porque ela percebeu que o homem é assim: viceral-global.
Em última análise -- antropologicamente falando --, o homem são relações entre as diferenças.
Costuma-se radicalizar quando se prega uma nova ideia. Costuma-se querer descartar o velho, que passa a ser considerado imprestável, e divinizar o novo,
que já nasce considerado perfeito. Todavia -- como já é, pelo menos em
teoria, consenso --, todo conhecimento é social, todo conhecimento novo
é, nada mais nada menos, uma ponta do iceberg das construções humanas
do passado.
Isso
foi dito para se afirmar que a Antropologia, sendo eminentemente humana
(e se ufana de ser a mais humana das ciências humanas), não foge a essa
regra, que, hoje, é considerada axioma.
E isso ela reconhece.
Laplantine (2003) afirma que a Antropologia tem como princípio metodológico surpreender-se com o que é familiar e tornar familiar o que é estranho. Nesse ponto, verifica-se um ceticismo quase cartesiano.
Mas
o novo conhecimento, embora seja todo embasado no velho, não é uma
cópia. Traz uma contribuição, um olhar diferenciado, uma nova luz.
E,
segundo Laplantine (2003), a grande luz da Antropologia é seu olhar
obsessivo e integrador sobre a diferença. E esse respeito à diferença
recebe a denominação de alteridade.
Segundo esse autor -- em digressão sobre a evolução do pensamento do homem sobre o homem --, a visão antológica de São Tomaz, a reflexiva de Descartes, a criticista de kant e a histórica de Hegel sempre buscaram padronizar o homem, buscando intensamente as semelhanças entre as pessoas. Nunca se pensou em pensar cientificamente a diferença.
Essa é a ruptura teórico-prática provocada pela Antropologia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
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