A Antropologia é a ciência que tem como objeto o homem em sua totalidade. Todavia, nem sempre foi assim.
Embora
o homem – em todas as culturas e em todas as épocas – sempre tenha se
dedicado à observação dos semelhantes, nunca o fez de forma científica
(LAPLANTINE, 2003).
A
Antropologia surgiu no séc. XVIII. No seu início, era um instrumento de
justificação da suposta superioridade européia. Para legitimar a
colonização, era preciso afirmar que, na verdade, não se estava
expropriando os povos nativos, mas sim os ajudando a “evoluírem” do
estágio primitivo (inferior) em que se encontravam para o civilizado
(superior), que era o em que estava a Europa (ARAÚJO, 20--). Não era um
ato de barbárie dizimar e aculturar
civilizações inteiras, mas sim um ato de caridade. E, para justificar
essa monstruosidade-caridade, a Antropologia era o instrumento ideal.
Em
vista desse objetivo – em princípio –, o seu objeto, que era empírico
(não fugindo à moda positivista), possuía cinco principais
características (LAPLANTINE, 2003).
A primeira é que deveriam ser sociedades longínquas.
Os europeus não pensavam em estudar a si mesmo (pois achavam que já se
conheciam muito bem) nem aqueles que já tiveram contato com eles. O
objetivo era estudar o homem em seu estado considerado – por eles – como
primitivo.
A segunda é que essa sociedade (numa visão inglesa) ou cultura (numa visão americana) deveria ter dimensões restritas, para que o estudo fosse possível.
A terceira é que essa sociedade tivesse pouca interação com outras, pois – como já destacado – ela teria que estar no estado mais primitivo possível.
A quarta é a tecnologia incipiente.
E
a quinta é que a divisão do trabalho – aqui empregada no sentido
proposto Smith (1996) – fosse a menor possível; noutras palavras, que
houvesse a menor especialização possível.
Acreditava-se,
também, que o estudo aprofundado dessas sociedades consideradas simples
ajudaria a compreender as consideradas complexas, pois aquelas seriam o
protótipo dessas.
Essa
caracterização, de certa forma, teve certa utilidade. Isso porque
possibilitou diferenciar a Antropologia das demais ciências e separar o
seu objeto do seu sujeito. A Física tem essa separação fundada na
natureza do sujeito e do objeto. A história, no tempo. E a Antropologia –
em seu início –, na geografia.
Todavia, no séc. XX, ocorreu o que Mercier (1966 apud LAPLANTINE, 2003) denominou a “morte do primitivo”.
O desenvolvimento dos transportes e das comunicações, alimentado pela
ânsia do capitalismo industrial – que se unira ao capital e começara a
produção em massa, necessitando assim, de mais mercados –, revolucionou,
minimizando, os conceitos de espaço e de tempo. Assim, os povos ditos
primitivos já haviam entrado em contato mais estreito e profundo com os
ditos civilizados; não podendo, doravante, serem denominados primitivos.
Logo, perdeu a Antropologia o seu objeto. Essa ciência passa, já no seu início, por sua maior crise. O que fazer?
Laplantine (2003) apresenta três alternativas.
A
primeira é a efetiva morte da Antropologia como ciência. Perdendo o seu
objeto, ela passaria a ser um tipo de sociologia, denominada Sociologia Comparada.
A segunda é adotar como objeto o camponês
– este “selvagem de dentro” (LAPLANTINE, 2003, p. 8) –, cuja cultura e
organização social são mais simples que a do homem urbano. Sob essa
ótica, a Antropologia continuaria sendo a mesma, passando apenas a
adotar um novo e mais complexo objeto.
A
terceira, que foi a adotada – prevalecendo ainda nos dias atuais –, é o
que se denomina “uma abordagem epistemológica constituinte”
(LAPLANTINE, 2003, p. 8). Essa se caracteriza por três idéias centrais: o
homem é estudado em toda a sua integralidade (em todas as sociedades, em todas as épocas, em todos os estados e em todas as latitudes); o seu método é o comparativo; e, por fim, o princípio que a rege é o da alteridade.
Assim,
firma-se a Antropologia, resolvendo definitivamente a sua crise. Não se
confunde com a História, pois não é limitada pelo tempo; com a
Sociologia, pois não se restringe à sociedade; e, muito menos, à
Psicologia, pois não estuda apenas a psique humana.
Debruça-se
ela sobre o homem em sua totalidade, utilizando-se dos conhecimentos –
como matéria prima para produzir o seu – das demais ciências. É por isso
que Laplantine (2003) destaca que, dentre muitas, há cinco principais
áreas na Antropologia: (1) a biológica, que trata da relação da genética com o meio e de como isso influencia a cultura; (2) a pré-histórica, que se utiliza da Arqueologia e busca reconstituir as sociedades desaparecidas; (3) a linguística, que se ocupa das formas de comunicação e de como essas influenciam e são influenciadas pela cultura; (4) a psicológica, que se debruça sobre os processos psíquicos e sobre como esses influenciam o indivíduo e a sociedade; e, por fim, a (5) etnológica, que consiste no estudo antropológico da cultura e da sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAÚJO, Jaqueline. Antropologia Social e Cultural. [S.l.]: FTC EAD, 20--.
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural LTDA, 1996. (Coleção os economistas)
Nenhum comentário:
Postar um comentário