segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Crise da Antropologia

A Antropologia é a ciência que tem como objeto o homem em sua totalidade. Todavia, nem sempre foi assim.

Embora o homem – em todas as culturas e em todas as épocas – sempre tenha se dedicado à observação dos semelhantes, nunca o fez de forma científica (LAPLANTINE, 2003).

A Antropologia surgiu no séc. XVIII. No seu início, era um instrumento de justificação da suposta superioridade européia. Para legitimar a colonização, era preciso afirmar que, na verdade, não se estava expropriando os povos nativos, mas sim os ajudando a “evoluírem” do estágio primitivo (inferior) em que se encontravam para o civilizado (superior), que era o em que estava a Europa (ARAÚJO, 20--). Não era um ato de barbárie dizimar e aculturar civilizações inteiras, mas sim um ato de caridade. E, para justificar essa monstruosidade-caridade, a Antropologia era o instrumento ideal.

Em vista desse objetivo – em princípio –, o seu objeto, que era empírico (não fugindo à moda positivista), possuía cinco principais características (LAPLANTINE, 2003).

A primeira é que deveriam ser sociedades longínquas. Os europeus não pensavam em estudar a si mesmo (pois achavam que já se conheciam muito bem) nem aqueles que já tiveram contato com eles. O objetivo era estudar o homem em seu estado considerado – por eles – como primitivo.

A segunda é que essa sociedade (numa visão inglesa) ou cultura (numa visão americana) deveria ter dimensões restritas, para que o estudo fosse possível.

A terceira é que essa sociedade tivesse pouca interação com outras, pois – como já destacado – ela teria que estar no estado mais primitivo possível.

A quarta é a tecnologia incipiente.

E a quinta é que a divisão do trabalho – aqui empregada no sentido proposto Smith (1996) – fosse a menor possível; noutras palavras, que houvesse a menor especialização possível.

Acreditava-se, também, que o estudo aprofundado dessas sociedades consideradas simples ajudaria a compreender as consideradas complexas, pois aquelas seriam o protótipo dessas.

Essa caracterização, de certa forma, teve certa utilidade. Isso porque possibilitou diferenciar a Antropologia das demais ciências e separar o seu objeto do seu sujeito. A Física tem essa separação fundada na natureza do sujeito e do objeto. A história, no tempo. E a Antropologia – em seu início –, na geografia.

Todavia, no séc. XX, ocorreu o que Mercier (1966 apud LAPLANTINE, 2003) denominou a “morte do primitivo”. O desenvolvimento dos transportes e das comunicações, alimentado pela ânsia do capitalismo industrial – que se unira ao capital e começara a produção em massa, necessitando assim, de mais mercados –, revolucionou, minimizando, os conceitos de espaço e de tempo. Assim, os povos ditos primitivos já haviam entrado em contato mais estreito e profundo com os ditos civilizados; não podendo, doravante, serem denominados primitivos.

Logo, perdeu a Antropologia o seu objeto. Essa ciência passa, já no seu início, por sua maior crise. O que fazer?

Laplantine (2003) apresenta três alternativas.

A primeira é a efetiva morte da Antropologia como ciência. Perdendo o seu objeto, ela passaria a ser um tipo de sociologia, denominada Sociologia Comparada.

A segunda é adotar como objeto o camponês – este “selvagem de dentro” (LAPLANTINE, 2003, p. 8) –, cuja cultura e organização social são mais simples que a do homem urbano. Sob essa ótica, a Antropologia continuaria sendo a mesma, passando apenas a adotar um novo e mais complexo objeto.

A terceira, que foi a adotada – prevalecendo ainda nos dias atuais –, é o que se denomina “uma abordagem epistemológica constituinte” (LAPLANTINE, 2003, p. 8). Essa se caracteriza por três idéias centrais: o homem é estudado em toda a sua integralidade (em todas as sociedades, em todas as épocas, em todos os estados e em todas as latitudes); o seu método é o comparativo; e, por fim, o princípio que a rege é o da alteridade.

Assim, firma-se a Antropologia, resolvendo definitivamente a sua crise. Não se confunde com a História, pois não é limitada pelo tempo; com a Sociologia, pois não se restringe à sociedade; e, muito menos, à Psicologia, pois não estuda apenas a psique humana.

Debruça-se ela sobre o homem em sua totalidade, utilizando-se dos conhecimentos – como matéria prima para produzir o seu – das demais ciências. É por isso que Laplantine (2003) destaca que, dentre muitas, há cinco principais áreas na Antropologia: (1) a biológica, que trata da relação da genética com o meio e de como isso influencia a cultura; (2) a pré-histórica, que se utiliza da Arqueologia e busca reconstituir as sociedades desaparecidas; (3) a linguística, que se ocupa das formas de comunicação e de como essas influenciam e são influenciadas pela cultura; (4) a psicológica, que se debruça sobre os processos psíquicos e sobre como esses influenciam o indivíduo e a sociedade; e, por fim, a (5) etnológica, que consiste no estudo antropológico da cultura e da sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAÚJO, Jaqueline. Antropologia Social e Cultural. [S.l.]: FTC EAD, 20--.
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural LTDA, 1996. (Coleção os economistas)

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