sábado, 24 de setembro de 2011

ALGUMAS QUESTÕES RELATIVAS À DESPESA AUTÔNOMA E À SUA RELAÇÃO COM A RENDA, NO ÂMBITO DA MACROECONOMIA KENEYSIANA

INTRODUÇÃO

    Este trabalho tem o objetivo de explicitar os principais agregados maroeconômicos, considerando a teoria desenvolvida por Keynes, em decorrência dos infortúnios de 1929, quando — devido à crença de que a oferta gera a sua própria demanda, conhecida como Lei de Say — o mundo, puxado pelos Estados Unidos, entrou numa crise econômica sem precedentes.

   Keynes inverteu a ótica da Lei de Say. Ao invés de a oferta gerar a sua própria demanda, é essa — a demanda — que gera a oferta. E isso implicou no nascimento da macroeconomia. Antes, não havia necessidades de estudos macroeconômicos. O mercado era, no campo da teoria, extremamente simples, embora não o fosse na realidade. O importante era produzir, era a oferta. O que fosse produzido seria, certamente, consumido: esse era um axioma.  

   Todavia — como já dito —, a crise de 1929 mostrou o quão frágil e irreal era esse axioma. A crua realidade exigiu a elaboração de uma nova teoria. Foi o que Keynes fez em sua obra “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Com essa obra, ele lançou as raízes da macroeconomia.

   A estrutura deste trabalho é a de um questionário. A primeira questão é dividida em dois itens. No primeiro, será abordado o conceito de multiplicador de demanda autônoma. Por meio da demanda autônoma gasto governamental, mostra-se que o investimento em um setor tem efeito multiplicador sobre a economia. No segundo, busca-se relacionar os agregados gastos governamentais, importações e exportações. Na segunda questão, relaciona-se o gasto governamental com o saldo orçamentário, questionando-se se o gasto impacta positiva ou negativamente no saldo. A terceira questão possui dois intens. No primeiro, avalia-se os efeitos na economia do aumento da propensão marginal a poupar. No segundo, fala-se sobre o hiato deflacionário e sobre as formas — quando já estiver ocorrendo — de combatê-lo.
   
Atividade de Portfólio
Nesta atividade, com base na leitura do texto da aula, discutiremos assuntos  importantes do modelo keynesiano simples de determinação da renda para o controle da atividade econômica, mostrando como a ação política do governo, com ênfase na política fiscal, pode ser utilizada para minimizar problemas de desemprego e inflação, e para o gerenciamento do orçamento público.

1. Supondo determinada conjuntura de uma economia hipotética, aberta e com governo. Pede-se:

a) Sabendo que o multiplicador de gastos autônomos (os gastos do governo deveriam aumentar, tudo o mais permanecendo constante, para que o produto de equilíbrio sofra um expansão de cinco por cento no horizonte de um ano. Em que consiste a força motriz desse efeito multiplicador de demanda autônoma (no caso, dos gastos públicos)?

Eis a fórmula que será utilizada para solucionar este item: α=∆Ye/∆Go*. Aplicando-a:
2=(0,05x1,6)/∆G
∆G=(0,05x1,6)/2
∆G=0,08/2
∆G=0,04

Logo, para que o nível de equilíbrio da renda passe de 1,6 trilhões para 1,68 (variação de 0,08 trilhões), é preciso que o governo gaste, ao longo de um ano, 0,04 trilhões. 

No que se refere à força motriz desse processo, pode-se dizer, baseando-se em Santos Filho (2010, p.30), que o multiplicador de demanda autônoma decorre da “demanda de consumo induzida pelos aumentos da renda”. Quando, por exemplo, o governo constrói uma estrada — nessa construção —, serão gerados empregos diretos e indiretos. Com essa renda, a famílias irão consumir, aumentando a produção de bens e serviços. Além disso, o produto poderá — devido à rodovia — ser distribuído com menor custo. Sendo essa redução repassada ao consumidor final, o produto será barateado, o que aumentará novamente o consumo. Não sendo, aumentará a margem de lucro da empresa, que terá mais recursos para investir na melhoria do processo produtivo, gerando um aumento na qualidade e/ou uma barateamento do valor do produto final.

Com se vê, o gasto governamental no setor produtivo dinamiza positivamente a economia.

b) Esse aumento de gastos governamentais pode afetar (aumentar ou diminuir) as       exportações líquidas de bens e serviços (saldo em transações correntes) dessa economia? Argumente.

As exportações líquidas são calculadas subtraindo-se o valor das exportações das importações (EL=Xo-M). Conforme o modelo de Keynes, as exportações são variável exógena; ou seja, independe da renda nacional; varia ela proporcionalmente à renda do resto do mundo e à taxa de câmbio. Todavia, o mesmo não ocorre com a importação. Essa é inversamente proporcional à taxa de câmbio e diretamente proporcional à renda disponível; eis a fórmula considerando-se apenas a renda disponível: M=m.Y. Onde “M” são as importações, “m” é a propensão marginal a importar, e “Y” é a renda.

Logo — seguindo essa linha de raciocínio —, as exportações líquidas seriam negativamente afetadas. Isso porque o aumento da renda — considerando-se a propensão marginal a importar — aumentaria também as importações, sem afetar as exportações. Consequentemente, o saldo das exportações líquidas de bens e serviços seria reduzido.

As questões a seguir também devem ser resolvidas no contexto do modelo keynesiano simples.

2. Alguns políticos quando julgam conveniente utilizam o argumento de que: “o governo deve ampliar seus gastos em áreas estratégicas da economia, pois o aquecimento da atividade econômica deles resultante levará a um crescimento suficiente da arrecadação para financiá-los, não afetando negativamente o orçamento do governo (saldo orçamentário)”. Você concorda? Por quê?

Em alguns casos, eles estão certos. Isso se se considerar o modelo keneysiano. A tributação líquida — variável endógena do modelo, pois está atrelada à renda — é calculada pela fórmula: T=t.Y, onde “T” é a tributação líquida, “t” é a propensão marginal a tributar, e “Y” é a renda. Vale destacar que do valor bruto de toda a tributação é abatido o valor empregado em transferências — “pagamentos às famílias sem a contrapartida na prestação dos serviços” (SANTOS FILHO, 2010, p. 25).

Pois bem, caso o governo gaste 5 bilhões e gere, com esse gasto — em decorrência do multiplicador —, uma renda de 20 bilhões, e a propensão marginal a tributar seja 0,25, ele arrecadará, com a renda extra, mais 5 bilhões. Assim, impulsionará a economia e terá o retorno dos recursos investidos, não impactando negativa ou positivamente no saldo orçamentário. Se, porém — com esses 5 bilhões —, a renda gerada for de 40 bilhões, e se mantiver a mesma propensão a tributar, a arrecadação resultante dessa renda será de 10 bilhões, impactando positivamente o saldo orçamentário.

No primeiro exemplo dado, o multiplicador de demanda autônoma (α=∆Y/∆D) foi 4. No segundo, foi 8. Sem dúvida, são valores altos. Entretanto, a propensão marginal a tributar (t) dos exemplos, considerando-se o Brasil, é baixa (0,25). Se, porém, “t” for 0,5 e “α” for 2, o governo terá o retorno do que foi investido. O investimento de 5 bilhões irão gerar 10 bilhões em renda e uma conseqüente arrecadação de 5 bilhões.

Logo, caso “α” não seja expressivo — para que essa política seja efetiva —, é preciso uma sufocante carga tributária. A renda disponível (Yd), obtida pela fórmula Yd=Y-T, onde Y e a renda nacional e T a tributação líquida, é a que efetivamente é utilizada para dinamizar a economia. Quanto maior T, menor será Yd, menor será o crescimento.

Por fim, destaque-se que o sucesso dessa política é diretamente proporcional a “α” e a “t”.

3. Comente apenas uma das afirmações a seguir que podem ser verdadeiras ou falsas. Caso escolha o item b, justifique a sua resposta considerando o objetivo da política econômica de buscar a menor taxa de desemprego possível.

  1. “Se as famílias de uma economia buscassem aumentar sua poupança como precaução frente ao risco do desemprego, poderiam incorrer em sucessos individuais, mas a tentativa seria frustrada para o conjunto da sociedade (tudo o mais constante)”.

No modelo keneysiano, investimento (Io), gasto governamental (Go*) e exportações (Xo), são considerados “injeções” na economia. Já a poupança (S), a tributação líquida (T) e as importações (M) são consideradas “vazamentos”. Nesse modelo, as injeções são iguais aos vazamentos: S+M+T=Io+Go*+Xo.

Santos Filho (2010) afirma que a propensão a poupar, a tributar e a importar — ao contrário do que ocorre com as propensões a investir, a gastar e exportar — surtem um efeito negativo no fluxo circular da renda, pois diminuem o valor do multiplicador de demanda autônoma.

No caso em questão — mesmo que esse aumento na propensão a poupar fosse acompanhado de um aumento proporcional da aplicação dos recursos dessa poupança em investimentos —, o crescimento seria desacelerado, visto o consumo ser diminuído no curto prazo. Porém — no longo prazo —, sendo essa poupança convertida em investimento, o benefício seria considerável. Segundo Santos Filho (2010, p.23), “estudos feitos revelam que os países desenvolvidos apresentam geralmente uma propensão marginal a consumir menor do a dos países em desenvolvimento, em decorrência de sua maior capacidade de poupança”.

Todavia, considerando-se a fórmula do consumo agregado — C=Co+c.Yd, onde “C” é o consumo agregado, “Co” o consumo autônomo (entendido como o existente mesmo que a renda seja nula), “c” a propensão marginal a consumir e “Yd” a renda disponível (já conceituada na questão 2 deste trabalho) —, a função poupança é complementar à função consumo, exprimindo-se nestes termos: S=-Co+(1-c)Yd. Ou seja, quanto maior a propensão a poupar, menor será a propensão a consumir. Quanto menor o consumo, menor será a renda — considerando-se a identidade macroeconômica básica.

Assim — macroeconomicamente falando—, essa atitude das famílias geraria grave recessão.

b) “Em uma conjuntura econômica característica de hiato deflacionário, é desnecessária a ação controladora do governo através de medidas de política fiscal e/ou comercial, uma vez que o mercado do produto tende espontaneamente ao equilíbrio via mecanismo macroeconômico de ajuste de estoques”.

   Isso vai depender do tamanho desse hiato deflacionário. Esse fenômeno é decorrente do excesso de oferta. Em alguns casos — quando há o pleno emprego dos fatores de produção (Ype) —, a oferta agregada (AO) pode ultrapassar excessivamente a demanda agregada, extrapolando o ponto de equilíbrio (E) entre os dois, que seria o adequado para se manter o nível de equilíbrio da renda nacional. Eis a ilustração gráfica do hiato deflacionário, representado por HD.
Fonte: Santos Filho (2010, p. 35)

   A Crise de 1929 foi resultante desse hiato. O excesso de oferta foi tão absurdo, em relação à demanda agregada, que não havia como essa evolução negativa dos estoques ocorrer naturalmente, regulada apenas pelas forças de mercado. Para que ocorra essa variação, é preciso parar de produzir. Se se para de produzir, não há como manter a mão de obra remunerada, sendo preciso demitir. Desempregadas, as famílias não têm renda para consumir, para comprar os produtos das empresas, para possibilitar a variação negativa dos estoques. Se as empresas não vendem, não terão como gerar receita. Não gerando receita, vão à falência. Está implantada a recessão.

   Nesse caso, a solução é gerar demanda. De forma que essa possa esgotar o excesso de estoque, reestabelecendo o fluxo circular da economia. E o governo é o agente desse processo, por meio das políticas econômicas. Nesse caso, é preciso agir sobre a demanda autônoma, devido ao efeito multiplicador que essa tem sobre a renda. Assim, poderia, por meio da política fiscal, aumentar os gastos (foi o que foi feito em 1929); ou, por meio da política cambial, aumentar as exportações.

   Sintetizando, caso o hiato deflacionário seja pequeno, a afirmativa estará correta — a variação negativa de estoques estabelecerá a normalidade; caso seja expressiva — como é o caso da Grande Depressão de 1929 —, a ação governamental, atuando sobre a demanda, é imprescindível. 

CONCLUSÃO

   As longo das questões, foram abordados — superficialmente — pontos relativos aos agregados econômicos de Keynes. Explicou-se a importância dos gastos governamentais, encarados como multiplicadores de demanda autônoma. Em teoria, independem da renda, e servem par aumentar a demanda. E o melhor é que esse aumento não é paritário. Aqui entra o conceito de multiplicador. O gasto em um agregado de demanda autônoma (investimento, gastos governamentais e exportação), via de regra, gera um efeito multiplicador. Como exemplo, se o governo gastar a mais 5 bilhões e o multiplicador for 2, haverá um acréscimo na renda de 10 bilhões. Ademais, mostrou-se que, a depender dos valores da propensão marginal a tributar e do multiplicador de demanda autônoma, um gasto governamental pode provocar variações positivas no saldo orçamentário.

   Explicou-se, também, que o aumento dos gastos governamentais — sendo isoladamente considerado — irá impactar negativamente nas exportações líquidas, pois aumentará a renda e, consequentemente, as importações.

   Foi explicado que, no curto prazo — ou desde que todos os demais agregados permanecessem constantes —, um aumento acentuado na propensão marginal a poupar diminuiria o consumo e, devido ao efeito cascata, poderia gerar recessão. Por fim, discorreu-se sobre o hiato deflacionário e sobre a importância da atuação governamental quando aquele atingir a certos patamares.
   
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
SANTOS FILHO, Raul dos. Disciplina Macroeconomia. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.

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