domingo, 25 de setembro de 2011

ALGUMAS QUESTÕES RELATIVAS AO MULTIPLICADOR BANCÁRIO, À VARIAÇÃO DOS MEIOS DE PAGAMENTO E AO PLANO REAL

1. Quais as características e funções da moeda. Como a inflação pode afetar a capacidade da moeda cumprir essas funções?

No que se refere às funções da moeda, os teóricos destacam três: a de intermediária, a de unidade de valor e a de reserva de valor. No primeiro caso, a moeda é o instrumento que intermedia as transações de compra e venda; sendo essa a função primeira da moeda.

No segundo, é o que valora os bens. Como é o instrumento utilizado para intermediar as trocas, passou, naturalmente, a ser a medida de valor das mercadorias que transaciona.

Assim sendo, guardar moeda significa guardar o poder de aquisição de mercadoria, o que é bem mais vantajoso do que estocar mercadorias, isso por causa da facilidade de manuseio e da liquidez da moeda.

As principais características da moeda são (ROCHA, 2010): indestrutibilidade e inalterabilidade, homogeneidade, divisibilidade, transferibilidade, facilidade de manuseio e transporte. As primeiras — indestrutibilidade e inalterabilidade — apregoam que, nas diversas trocas que uma mesma unidade de moeda intermedia, ela não pode ser — pelo menos no curto e médio prazos — destruída ou alterada. Na homogeneidade, diferentes unidades de compra que tenham o mesmo valor devem ser rigorosamente iguais. A divisibilidade afirma que a moeda padrão (real, dólar, euro) deve possuir múltiplos e submúltiplos, para atender as diversas demandas por trocas. A transferibilidade possibilita que a moeda circule com o mínimo de empecilhos, e isso é garantido pelo Estado, através da emissão do papel-moeda. Por fim, há a facilidade de manuseio e transporte. Essa afirma que a impressão da moeda seja feita em material e em quantidade que possibilite a sua adequada utilização, de forma a atender a demanda por moeda.

A inflação é fenômeno econômico que corrói o valor da moeda. Em excesso — que o diga a experiência brasileira —, destrói o poder de compra das classes mais desfavorecidas, que não têm recursos para aplicá-los no banco, o que as beneficiaria com a indexação. Assim — para essas classes —, a moeda perde muito da sua força, e isso nas três funções que executa: intermediária, unidade de valor e reserva de valor. Ao perder o valor, transacionará menos bens. Pelo mesmo motivo, haverá menos moeda para se guardar. A rigor, uma inflação galopante é um roubo que incide violentamente sobre as classes desfavorecidas, é um imposto direcionado a quem tem pouco.

2. Os cartões de crédito e os de débito têm sido cada vez mais utilizados nas transações de aquisição de bens e serviços, então podem ser considerados como moeda? (justifique)

   Qual o conceito de moeda? É, em princípio, o instrumento que tem com finalidade — embora haja outras — servir de intermediário nas trocas de bens e serviços. Por meio dele, a troca não mais é direta, mas sim indireta. Em vez de ser uma única transação, passa a ser duas: compra e venda. E qual a finalidade dos cartões de crédito de débito? O que é feito com esses cartões? Compras. Eles, literalmente, servem como intermediários, executam a função que é devida à moeda. Por meio deles, é possível o uso da moeda escritural (que é a constante nas contas bancária) e do crédito. Eles são o meio físico que possibilitam o uso de uma moeda “virtual” — moeda escritural e o crédito.

3. Como o Banco Central pode interferir na capacidade que tem os bancos de criar de moeda?

   Por meio do compulsório. Esse determina a razão de reserva, a taxa de encaixe bancário, que é o montante dos depósitos à vista que não podem ser transacionados, que, forçosamente, terão de ficar “amarrados”. Se não podem ser transacionados, não podem ser multiplicados. Isso fica bastante claro quando se considera o multiplicador bancário: K=1/R, onde “k” é o multiplicador bancário e “R” é a razão de reserva. Como se vê, quanto maior a taxa de encaixe bancário, menor será o multiplicador, menor será a capacidade de os bancos criarem moeda.
4. Em que consiste o multiplicador da moeda? Se o Banco Central eleva a taxa de recolhimento (reserva) do sistema bancário de 40% para 80% quais os valores dos respectivos multiplicadores?

   Consiste num instrumento indireto de criação de moeda. Esse instrumento é utilizado pelo sistema bancário e existe devido à capacidade que os bens têm de gerar outros bens. Quando o banco empresta certa quantia a um empresário, cobra juros. O empresário aplicará o capital na sua atividade produtiva, agregando valor à sua produção e gerando empregos. Os empregados irão adquirir produtos, poupar ou especular. E todo esse montante, de uma forma ou de outra, retorna ao banco, multiplicado.

   Quando o BC mantém a razão de reserva na taxa de 40%, o multiplicador será 2,5 (K=1/0,4). Ao dobrar o valor da taxa de encaixe bancário — de 40% para 80% —, ele reduzirá o multiplicador pela metade; ou seja, esse passará a ser 1,25 (K=1/0,8). Como se vê, o multiplicador è inversamente proporcional à razão de reserva.

5. Qual a variação na oferta de moeda se ocorre um aumento no volume dos depósitos a vista de R$ 200 milhões e se a razão de reserva (R) é de 1/4?

   Eis a fórmula da variação dos meios de pagamento: ∆M=k.∆D, na qual ∆M é a variação dos meios de pagamento; “k” é o multiplicador bancário; e ∆D é a variação dos depósitos à vista. Para se encontrar “K”, usa-se a fórmula: K=1/R. Logo:

K=1/0,25
K=4

    Utilizando-se agora a fórmula dos meios de pagamento:

∆M=4.200
∆M=800

   Portanto — sendo a variação de depósitos à vista equivalente a R$ 200 milhões e a razão de reserva equivalente a 0,25 —, a variação dos meios de pagamento será de R$ 800 milhões.

6. Quais os instrumentos que o Banco Central pode utilizar para destruir ou criar moeda? (explique a aplicação de cada instrumento).

    São os seguintes instrumentos de política monetária: emissão de papel moeda, depósitos compulsórios, redesconto e operações em mercado aberto. A autarquia governamental que operacionaliza esses instrumentos, sob a chancela governamental, é o BC.

    Antes de definir cada uma e explicar a sua atuação na criação e destruição de moeda, é preciso definir o que significam esses termos. Criação de moeda é a variação positiva nos meio de pagamento (∆M). Destruição de moeda é a variação negativa nesses mesmos meios. Quando se faz alusão a meios de pagamento, refere-se apenas ao que é denominado M1; ou seja, moeda em circulação e os depósitos à vista. Assim — quando se aplica moeda em títulos (poupança,CDB, títulos governamentais etc) —, está havendo destruição de moeda.

A emissão de papel moeda é instrumento de criação. Se utilizada para financiar os déficits estatais — como o foi por muitos anos no Brasil —, irá gerar indesejada inflação, degenerando a moeda.

Por meio dos depósitos compulsórios — que é a determinação direcionada aos bancos para que esses não transacionem, sob qualquer forma, percentual dos depósitos à vista —, o BC controla o multiplicador bancário (K), que é obtido pela fórmula: K=1/R. O índice que representa esse instrumento é a razão de reserva (R) ou taxa de encaixe bancário. Como se vê, a razão de reserva (R) é inversamente proporcional ao multiplicador (K). Assim — quando o BC necessita criar moeda —, ele diminui o valor da taxa de encaixe bancário. Quando deseja destruir, ele aumenta essa taxa.

As operações em mercado aberto consistem na compra e venda de títulos efetivada pelo Estado, por intermédio do BC. Ao vender, o Estado destrói moeda, pois recolhe do setor privado M1. Ao comprar, cria, pois injeta M1 no mercado. Instrumento que atua diretamente sobre o mercado aberto é a taxa de juros. O seu aumento torna os títulos (quase-moedas) mais atrativos, levando a uma diminuição em M1. A sua diminuição surte o efeito contrário.

O redesconto é o instrumento através do qual o BC empresta moeda aos bancos. Assim — quando deseja criar moeda —, o BC diminui a taxa do redesconto e/ou disponibiliza empréstimos aos bancos, criando moeda.

7. Conceitue inflação e especifique os tipos de inflação?

    Santos filho (2010, p. 49) define inflação como “como sendo um aumento generalizado e continuado nos níveis de todos os preços da economia”. Logo, não é qualquer aumento no nível geral de preços, mas sim um aumento “generalizado e continuado”. Não pode, portanto, ser em apenas alguns produtos ou apenas pontual.

    Há, basicamente, dois tipos de inflação (WIKIPÉDIA, 2011b): a inflação de demanda e a inflação de custos. A inflação de demanda é a relacionada ao excesso de demanda. A procura agregada é bem maior que a oferta agregada, o que, naturalmente, irá gerar alta generalizada no nível geral de preços. A inflação de custos é que ocasiona a alta dos preços devida ao aumento dos insumos e demais custos associados à produção. É o que ocorre quando se aumenta os impostos indiretos, que exemplo de custos, ou o petróleo, que é exemplo de insumos, bens intermediários. Além desses — porém —, são considerados outros tipos, como a inflação estrutural (resultante de especificidades do mercado, como imperfeições técnicas e pressões sindicais) e a inercial, que é a elevação dos preços com base em índices inflacionários passados.

8. Se o Banco Central planeja expandir a oferta de moeda em 10% e o Governo estabelece como meta, para o mesmo período, um crescimento do PIB de 4,5%, diante desse cenário o que deve se esperar que ocorra com o nível geral de preços?

   Para resolver essa questão é preciso utilizar a seguinte fórmula: ∆p=((∆m+1)/(∆y+1))-1, na qual ∆m é igual à  variação reativa do volume da moeda, ∆y equivale à variação relativa do PIB real ou da renda real e ∆p equivale à variação relativa do nível geral de preços. Assim — aplicando a fórmula —, tem-se:

∆p=((0,1+1)/(0,045+1))-1
∆p=(1,1/1,045)-1
∆p=1,056-1
∆p=5,26%

   Logo, o nível geral de preços — considerando o aumento da oferta de moeda m 10% do PIB em 4,5% — terá uma variação positiva de 5,26%.

9. Com base na Teoria Monetarista da Inflação, em que consiste o princípio da neutralidade monetária?

    Essa teoria está embasada na Teoria Quantitativa da Moeda. Essa afirma que o valor da moeda é determinado pela quantidade dessa, e não pela riqueza que ela representa. Assim, há clara distinção entre as unidades monetárias (moeda) e as unidades físicas (riqueza real) (WIKIPÉDIA, 2011a). E nisso consiste o princípio da neutralidade monetária. Segundo ele, há duas variáveis: reais e nominais. As nominais são a moeda e as reais são os bens e serviços. Essas duas, frise-se, são independentes, sendo a última a que determina toda a dinâmica da economia.

Como a inflação é a deterioração do valor da moeda, aquela, portanto, resulta da quantidade de moeda, e não da oferta e/ou demanda de bens e serviços. Logo — para controlá-la —, não há a necessidade de se atuar sobre a demanda agregada de bens e serviços — como apregoa a escola keneysiana, que fundamenta a teoria heterodoxa —, bastar agir sobre a quantidade de moeda do mercado, sobre a oferta de moeda. Os instrumentos keneysianos/heterodoxos de “acerto da economia”, baseados em ações sobre a demanda real (demanda de bens de serviços, cuja moeda é simples representação, e não uma entidade independente, onipotente, na qual se baseia, de forma exclusiva, toda a economia), facilmente refutaram essa teoria.

10. Nas duas últimas décadas do século passado foram adotados vários programas de combate à inflação na busca pela estabilização dos preços (Plano Cruzado, Plano Verão, Plano Collor e Plano Real), na sua opinião porque apenas o Plano Real teve sucesso (fundamente)?

   O Plano Real atuou agressivamente sobre as três políticas que afetam diretamente a inflação: monetária, fiscal e cambial. Foi implantado em três fases. Na primeira, buscou-se enxugar a máquina pública. Na segunda, combateu-se a indexação. Na terceira, implantou-se o plano.

No que se refere às políticas monetárias, foram dois os principais instrumentos utilizados: a taxa de juros, que, em média, era de 26,5%, bem superior aos atuais 12% (WIKIPÉDIA, 2011c); e o aumento da taxa de encaixe bancário, chegando, no seu auge, a 100% (GARCIA, 1994). Essas medidas tinham o claro propósito de desacelerar a economia, diminuindo a demanda agregada por bens e serviços. É claro que isso iria afetar pesadamente a oferta de bens e serviços, o que poderia gerar uma escassez de oferta — causa do fracasso do Plano Cruzado.

Para evitar esse contratempo, utilizou-se a política cambial. O objetivo era estimular as importações. Isso foi feito através de duas medidas: contingenciamento, que é a fixação forçada do câmbio (câmbio fixo), valorizando o real, objetivando também obrigar a indústria nacional a modernizar-se; e a gradual redução de tarifas de importação.  

Mas isso não era suficiente. O Estado estava passando por grave crise fiscal. Os sucessivos déficits estavam sendo financiados pela emissão de papel moeda e por empréstimos contraídos interna e externamente. Por isso, era fundamental enxugar a máquina pública e aumentar as receitas, para que o Estado pudesse se sustentar apenas com seus próprios recursos. Nesse processo, foram privatizadas diversas empresas, cortados diversos gastos (no governo de FHC, foram, aproximadamente, demitidos 20 mil servidores) e aumentada a carga tributária.

Como se vê — atuando sobre as três frentes (fiscal, monetária e cambial) —, o Real conseguiu estabilizar a economia e retomar o crescimento nacional. E isso foi possível graças à sua ação sinérgica e global, que mobilizou toda nação. Os planos a ele anteriores pecaram por atuar, via de regra, em uma só frente, de forma que a conquista numa era anulada pelo fracasso noutra.

REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DICOTOMIA CLÁSSICA. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Dicotomia_cl%C3%A1ssica> Acesso em: 07 set 2011.

GARCIA, Márcio G. P. Compulsório, Crédito e Política Monetária. [S.I.]: [s.n.], 1994. Disponível em: < http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:antEQ7RVYAIJ:www.econ.puc-rio.br/mgarcia/artigos/compulsorio.pdf+qual+o+valor+do+compulsorio+no+plano+real&hl=pt-BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESgstqj5jPOwagznN7bWOrDQCw5Y9Z7UGkkJe1UMSh1CBVTKMHsOm08argIj6oV2hs9JFdqp1CP92g8lHSM2dVTRwxBLjNhwEpUC-SIuUqVH2FHZQtUQnhKFVTT7YB4wDGSHtPP2&sig=AHIEtbR48UhiYEzifLnUsmLmKR3hN9BQgA> Acesso em: 07 set 2011.

INFLAÇÃO. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Infla%C3%A7%C3%A3o > Acesso em: 07 set 2011.

PLANO REAL. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Plano_real > Acesso em: 07 set 2011.

ROCHA, Adilson. Economia e Finanças Empresariais Macroeconomia. São Paulo: Fatec Sorocaba, 2010. Disonível em: . Acesso em: 07 set 2011.

SANTOS FILHO, Raul dos. Disciplina Macroeconomia. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário