sábado, 25 de fevereiro de 2012

Celulose S.A: estratégias de sustentabilidade.


O objetivo deste post é mostrar estratégias que uma empresa de celulose adotaria para, ao mesmo tempo, maximizar seus lucros, preservar o meio ambiente e proporcionar desenvolvimento econômico-social. Noutras palavras, como uma empresa desse setor poderia obter alta rentabilidade por meio de estratégias de desenvolvimento sustentável.

O conceito de desenvolvimento sustentável a ser utilizado será o formulado, em 1987, pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), vinculada à ONU: é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir as suas próprias necessidades. A esse conceito, serão agregadas as dimensões de Lemos (2005 apud GUIMARÃES; MOREIRA, 2010) –– geoambientaltécnico-científicasocioeconômica e politicoinstitucional –– e o princípio da solidariedade, de Schas (1993 apud GUIMARÃES; MOREIRA, 2010). Para maiores detalhes sobre os conceitos, basta verificar a postagem anterior.

As empresas de celulose, cujo principal produto é o papel, sempre se destacaram por serem altamente predatórias. Nos últimos anos, porém, esse quadro foi sendo modificado. Isso se deve, é claro, ao desenvolvimento tecnológico –– que é, pegando-se emprestado conceito de Lévy (1999), fator condicionante, limitador, mas nunca determinante –– e ao movimento eminentemente ecológico, com fortíssimo viés humanista, que apregoa o desenvolvimento sustentável. Esse quadro, todavia, foi modificado, com a adoção das estratégias que serão explicitadas.

Pois bem, como aumentar a produção de celulose, em pelo menos o dobro, utilizando-se de práticas vinculadas ao desenvolvimento sustentável?

Em princípio, é preciso fazer uma breve caracterização da empresa.

É uma instituição de grande porte, com a denominação de Celulose S.A, com vastas propriedades destinadas à plantação de eucalipto, que se utiliza de técnicas predatórias (logo, arcaicas) de produção.

Com a mudança de administração, ocasionada pelo falecimento de seu proprietário e fundador, a nova direção, visando à conquista de fatia do mercado externo e à ampliação de sua participação no mercado interno, decide fazer uma reengenharia.

Isso se tornou mais premente após pesquisa encomendada à empresa especializada, objetivando, basicamente, obter duas informações.

Qual a imagem da Celulose S.A perante o mercado consumidor?

A Celulose S.A vem aumentando sua participação no mercado?

A imagem foi considerada ruim, visto ser vista como uma empresa que não respeita o meio ambiente, visando apenas o lucro, mesmo que isso acarrete a degradação ambiental e os consequentes desastres sociais.

O aumento de sua participação no mercado, em relação ao de seus maiores concorrentes, foi ínfimo.

Assim, os novos dirigentes, espelhando-se em exemplos de empresas que já haviam se adequado à nova realidade e desejando implementar as adaptações necessárias à realidade da Celulose S.A, contrataram renomada consultoria, para que essa traçasse um plano estratégico, cujo fim seria dirimir os problemas detectados.

Após rigoroso e minucioso estudo, o plano estava feito.

Como não podia ser diferente, as ações estavam divididas em quatro grupos, que são as dimensões de Lemos (2005 apud GUIMARÃES; MOREIRA, 2010).

No que se relaciona à questão técnico-científica, seriam necessárias várias medidas. Primeiro, era preciso primar pela eficiência, eliminado todo e qualquer desperdício. Para isso –– além das técnicas de engenharia de produção (cujos embriões foram lançados por Taylor, com o estudo dos tempos, dos movimentos e do ambiente) ––, era preciso uma série de outras medidas, relativas às mais modernas tecnologias.

A primeira seria o uso de 100% do material retirado das florestas renováveis. Isso implicará, necessariamente, numa diversificação do uso econômico dessa floresta.

A segunda seria a reciclagem de boa parte do papel descartado pela população e pelas empresas. Para isso, não seria preciso que ela mesma criasse departamentos especializados nisso. Poderia passar a comprar esse material de cooperativas (dando-lhes, inclusive, assistência técnica), o que agregaria valor social à sua imagem, e geraria renda para a população.

A terceira seria ampliar o conhecimento por troca de experiências. Essa troca seria feita com a comunidade, com o meio acadêmico, com as ONGs e com as demais empresas do ramo. Essa rede seria fundamental à criação e desenvolvimento de novas técnicas capazes de tornar o processo cada vez mais sustentável.

A quarta seria o reuso da água. Já é comprovado que esse processo reduz, em até 40%, a água gasta no processo de produção.

A quinta seria a autossuficiência energética. Algumas empresas do setor já conseguem, por meio da utilização do licor negro, produzir 97% da energia que utilizam. Os efeitos ambientais dessa prática são excelentes. Primeiro, porque, numa visão econômica, haveria considerável economia de recursos financeiros, que seriam reempregados nas atividades da empresa. Segundo, porque o processo produtivo fica menos suscetível a ameaças, como a de um colapso energético. E terceiro, porque o uso dessa energia diminuiria o uso dos combustíveis fósseis e da energia das hidrelétricas; isso constitui uma vantagem, sob o ponto de vista ambiental, por essas modalidades energéticas serem extremamente danosas à natureza.

Do ponto de vista socioambiental, há outras questões.

A primeira é a criação de corredores ecológicos. Esses são ecossistemas nativos menores, como se fossem uma estrada, que unem ecossistemas maiores. Essa comunição entre a flora e fauna de diferentes biossistemas favorece a manutenção desses. Isso é preciso porque, via de regra, as plantações de eucalipto cortam a floresta, criando um abismo artificial entre holocenoses que, em princípio, coexistiam simbioticamente. A separação, portanto, seria indesejado passo para a famigerada degradação.

A segunda questão é monitoração ambiental. Essa é o acompanhamento contínuo e sistemático das variáveis ambientais. É claro que, nesse bojo, outras variáveis que impactem no meioambiente –– como as econômicas, as sociais e as institucionais –– são também monitoradas. Todavia, o centro norteador é a variável ambiental. Em regra, essa monitoração ocorre em quatro fases, que se entrelaçam. A primeira é o acompanhamento das alterações na qualidade do meio ambiente. A segunda é a elaboração, com base nos diagnósticos já realizados, de uma projeção dos comportamentos esperados na biocenose estudada. A terceira é o desenvolvimento de instrumentos de gestão que viabilizem a convivência sustentável e rentável com o biossistema. A quarta e última é a elaboração e implementação de ações saneadoras dos percalços encontrados.

Do ponto de vista econômico-social, há três grandes estratégias.

A primeira é o envolvimento dos pequenos produtores com as atividades da empresa. Parte da produção de eucalipto poderia ser feita em parceira com eles. Assim, geraria renda na comunidade e haveria a transferência de tecnologia, pois eles seriam, por técnicos especializados, ensinados a tirarem o máximo de proveito de suas propriedades. Isso não se refere apenas à plantação de eucalipto. Relaciona-se, também, à lavra de outras culturas.

A segunda é a vigilância ambiental. Essa se relaciona ao diagnóstico e imediata percepção das modificações no meioambiente que poderão acarretar danos à saúde humana.  

A terceira são os créditos de carbono. Esses são emitidos pelo poder público. São direcionados às empresas que conseguiram reduzir a emissão dos gases do efeito estufa (GEE). São títulos, no sentido econômico. Como tais, são comercializáveis, pelo valor de mercado. Assim, empresas que, em vez de ficarem abaixo do máximo tolerado pela legislação nacional e internacional (no que se refere à emissão de GEE), ultrapassam esse limite, veem-se forçadas a adquirirem os créditos de carbono. Isso porque, dessa forma, evitam pesadas multas, pois os créditos de carbono funcionam como permissão de emissão de GEE. Essa é uma interessante fonte de renda.

Por fim, há a questão politicoinstitucional. Nessa, há duas estratégias.

A primeira é o pensar estrategicamente a produção. Assim, é fundamental implementar uma administração de produção. A Celulose S.A optou pela proposta por Barbosa e Santos (2007). Essa é composta de seis vigas. A primeira é o custo, no qual impera a eficiência, devendo-se diminuir ao máximo o desperdício e otimizar a produção de bens e serviços. A segunda é qualidade. A terceira é o desempenho na entrega, caracterizada pela realização no menor tempo possível e sem nenhum dano ao produto. A quarta é flexibilidade, que é a rápida adaptação a mudanças inesperadas. A quinta é a inovatividade, que consiste em lançar novos produtos e serviços que atendam, satisfatoriamente, as necessidades dos consumidores. E a sexta que é a não agressão ao meio ambiente (que já foi bastante comentada), focando-se na sustentabilidade e na responsabilidade socioambiental.

A segunda é a busca por certificações. Essas são emitidas por organizações, nacionais e internacionais, comprovadamente idôneas e de capacidade técnica reconhecida. Agregam valor ao produto, pois são certificados de qualidade e de respeito ao meioambiente e à humanidade. Para se abarcar fatia do mercado internacional, são indispensáveis. Elas, é claro, serão consequência natural da realização das demais medidas.

Como se vê, essa reengenharia, apesar de exigir um pesado investimento inicial e uma radical mudança na mentalidade da empresa (com a consequente modificação da missão, da visão e dos valores), é imprescindível à maximização dos lucros e à sustentabilidade da Celulose S.A, já que pretende continuar a ser uma das líderes do mercado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARBOSA, Reginaldo José; SANTOS, Graziela. Planejamento Estratégico da Produção. Revista Eletrônica de Administração. São Paulo, ano 34, n. 12, jun, 2007. Disponível em: < http://www.revista.inf.br/adm13/pages/resenhas/ADM-edic12-anovii-nita01.pdf>. Acesso em: 16 out. 2011.

BARONI, Margaret. <Ambiguidades e Deficiências no Conceito de Desenvolvimento Sustentável. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, n. 32(2): 14-24, abr/jun, 1992. Disponível em: http://rae.fgv.br/sites/rae.fgv.br/files/artigos/10.1590_S0034-75901992000200003.pdf> Acesso em: 23 fev 2012.

GUIMARAES, Elidihara Trigueiro; MOREIRA, Jeanne Marguerite Molina. Disciplina SeminárioTemático II: Responsabilidade Social Corporativa e Terceiro Setor. Fortaleza: UFC Virtual, 2010.

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

BIBLIOGRAFIA:

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