terça-feira, 2 de outubro de 2012

Coréia e Brasil: duas formas distintas de se conduzir o Estado


Apresente, em seu portfólio individual, uma discussão sobre o papel da centralidade do Estado no processo de desenvolvimento econômico do Brasil e da Coreia. Utilize como base o texto “As diferentes trajetórias percorridas por dois países periféricos de industrialização tardia: Brasil e Coréia”. Acrescente ideias de outros autores, pesquisados por você, sobre o assunto em estudo. O texto deve conter cerca de duas laudas digitadas.

Nery (2005) apresenta interessante estudo que, com dados, analisando os contextos global e interno, desmistifica a ideia – apregoada por arautos do Neoliberalismo – de que o sólido desenvolvimento da Coréia (tomada como símbolo dos Tigres Asiáticos – Hong Kong, Coréia do Sul, Taiwan e Singapura) deveu-se à sua liberalidade do mercado, nos moldes do extemporâneo Liberalismo.

Defende que foi exatamente o contrário. Enquanto – no Brasil e no restante da América Latina –, o Estado era uma extensão da iniciativa privada, preocupando-se em garantir os interesses provisórios do grupo que ora estava no poder, não considerando o interesse da nação, e desprovidos de visão de longo prazo, de visão estratégica; na Coréia do Sul – devido ao contexto global e à ação férrea do Estado –, os esforços da nação foram direcionadas ao desenvolvimento nacional.

Nery (2005), primeiramente, destaca a questão externa. Mostra que o interesse da nação então dominante no contexto da Guerra Fria (os EUA) em relação ao Brasil e à Coréia era bem diferente. Com a Coréia do Sul, que, de um lado, defrontava-se com a URSS, e, de outro, com a Coréia do Norte, os EUA estabeleceram uma relação de parceria. O objetivo era desenvolvê-la para que se fosse mostrado o sucesso do modelo Capitalista e, simultaneamente, consolidasse um forte aliado em estratégica posição geopolítica. Com o Brasil, estabeleceu-se uma relação predatória, na qual as riquezas nacionais eram transferidas, mediante o instituto do investimento direto das megacorporações e dos empréstimos externos sem um rígido controle estatal dos capitais investidos; afinal, a nação canarinho já era cliente cativa e submissa, não representando ameaça alguma aos interesses do Tio San.

Posteriormente, enfatiza a postura dos dois Estados, frente às conjunturas econômicas que lhes eram externas e internas. No Brasil, imperou a permissibilidade. Na Coréia, a rigidez. O capital especulativo e a fuga de divisas “deitaram e rolaram” no solo de vera cruz. Houve, durante décadas, uma verdadeira “farra”, na qual se locupletaram as multinacionais e os grandes investidores. Na Coréia, – com braço de ferro – o estado manteve, através de rígidas leis e de um eficiente padrão de financiamento, a economia em suas eficientes mãos. No primeiro caso, – a título de ilustração – cita-se o lei que apenava, inclusive com a morte, aqueles que, na década de sessenta, ousassem transferir para o exterior quantias superiores a 1 milhão de dólares. Para ratificar o segundo, basta citar que, no princípio, estatizou toda rede bancária (o que o “intervencionista” estado canarinho nunca sonhou em fazer), detendo mais de dois terços de todo recurso investido no país. Tinha, assim, total domínio sobre a economia, dando-lhe o rumo que bem entendesse. Além disso, ao conceder subsídios aos setores estratégicos, cobrava, com drásticas medidas, os resultados acordados. Ao contrário do Brasil, cujo estado é o pasto do setor privado, que drena – pelos dutos da corrupção – o patrimônio público.

Ademais, há de se considerar a visão estratégica. Enquanto, acomodadamente, o estado brasileiro contentou-se em reforçar os setores tradicionais, como a pecuária, a agricultura e a indústria; a Coréia – percebendo o contexto macroeconômico – investiu em telecomunicações, na indústria automobilística e em informática. Para isso, consolidou um efetivo sistema educacional, que lhe possibilitou formar mão de obra qualificada para esse empreendimento. E isso é fácil de explicar. O Estado brasileiro é a classe dominante que, na época, era retrógrada. Em vez de volver seus olhos para o futuro, centraram-se no presente, guiados por antiquadas técnicas e mesquinhos objetivos. Na Coréia, o Estado não representava um setor econômico, mas sim toda a nação. O seu interesse não era parcial, era geral. Desde o início, devido à salutar interferência americana (essa colocação é deveras estranha, aparentemente paradoxal, mas, como já explicado, os EUA tinha efetivo interesse um real crescimento coreano), o Estado pôde agir com independência em relação às classes que anelavam manter o status quo.

Por fim, vale destacar que uma fórmula exitosa em um país pode ser desastrosa em outro. A Coréia, com seu punho de aço, conseguiu determinar, por meio do Estado, o rumo da economia, mobilizando todas as forças da nação para os objetivos delineados. Na Pátria do Cruzeiro – porém –, reina o famoso “jeitinho brasileiro”. As rígidas medidas aplicadas na Coréia jamais vingariam aqui. Isso, de certa forma, torna a missão mais complexa. É preciso convencer, em vez de impor; explicar, em vez de determinar; dialogar, em vez de gritar. Essa dificuldade, porém, não é o mesmo que impossibilidade.

Apesar de não se ver a educação – alicerce do atual desenvolvimento econômico – erigida à prioridade maior das políticas governamentais (o que fica claro quando se considera a estrutura do ensino e à humilhante remuneração que se impõem aos docentes – que só permanecem na profissão por necessidade ou por, como disse um certo governador, ao ironizar uma greve de professores da rede estadual de ensino, por amor), observa-se que a evolução foi considerável. O Brasil tem mantido um crescimento estável, o que lhe granjeou o respeito de todo o mundo. Sem dar grande passos, caminha, firme e forte, rumo ao bloco dos países que conduzem os destinos do mundo. Isso, porém – é imprescindível destacar –, só foi possível graças à planejada e sólida intervenção do Estado que, há mais ou menos dez anos, retomou as rédeas da nação, contrapondo-se ao modelo neoliberalista até então vigente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
NERY, Tiago. As diferentes trajetórias percorridas por dois países periféricos de industrialização tardia: Brasil e Coréia. 2005. Disponível em: http://www.senado.gov.br/senado/ilb/pdf/brasil_coreia.pdf. Acesso em 27 set 2012

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