A cibercultura é a cultura resultante das interações –– no modelo todos-todos (LEVY, 1999) –– ocorridas no ciberespaço. Ciberespaço é um neologismo inventado por Wilian Gibson, no romance Neuromante, em 1984, para designar “um universo de redes digitais, descrito como um campo de batalha entre as empresas multinacionais” (LEVY, 1999, p. 92). Levy (1999), porém, atribui-lhe um sentido mais funcional. Afirma que é um espaço aberto mantido pela interconexão mundial dos computadores, e pela consequente interação dos seus usuários e pelas informações que nela surgem e circulam. Indo mais além, afirma que não é a infraestrutura que o viabiliza (não é a técnica condicionante, limitadora), mas sim a forma particular de usar essa estrutura, é “um tipo particular de relação entre as pessoas” (LEVY, 1999, p. 124). E essa forma é caracterizada pela mais intensa interação.
E como é essa cultura gestada no ciberespaço? A cultura resulta da interação entre as pessoas. E essa interação é mediada por uma técnica. Essa técnica não determina a cultura, mas a condiciona, limita-a.
As culturas orais são marcadas por uma totalidade sem universal. Eram uma totalidade porque se fechavam, num sentido claro, em si mesmas; cada membro sabia o que deveria ser feito, que era o que rezava a tradição, apregoada pela sabedoria dos anciães. Eram “sem universal” porque as mesmas práticas não abrangiam um grande contingente de pessoas (países ou o mundo inteiro), mas sim pequenos povos.
As culturas escritas eram, e são, marcadas por um universal totalizante. A escrita permitiu a descontextualização da mensagem. Nesse ínterim, surgiram as leis, as religiões universais, os modelos teóricos. A mensagem poderia ser propagada fora de seu tempo e de seu espaço, para um enorme número de pessoas. Assim, há uma comunicação universal, no modelo um-todos; isso permite a difusão de um sentido, imposto pelos detentores das técnicas de comunicação, que são, em regra, os mesmos que encerram em suas mãos o poder político. A interação não é a regra. Impera o modelo de alguns emissores para inúmeros receptores que assumem uma posição de passividade. Eis o paradigma que ainda hoje impera.
Na cibercultura –– contrapondo-se ao modelo anterior ––, “não se trata mais de uma difusão a partir de centros, e sim de uma interação no centro de uma situação” (LEVY, 1999, p. 224). Há um espaço de interação de todos os conteúdos humanos (sentimentos, pensamentos, imaginação, ciência, religião, técnica etc.). Nesses territórios, todos têm voz e vez. A comunicação é no modelo todos-todos. Não há regras prévias, normas não construídas no próprio espaço pelos seus participantes. Tudo é um devir. Há uma universalidade, porque todos participam; não há uma totalidade, pois não há um sentido imposto, fechado, estanque. É uma universalidade sem totalidade. A principal característica constante nessa cultura é a interminável e vertiginosa mudança. O saber é como uma biblioteca de babel que não pode ser queimada, que é “ao mesmo tempo reunida e dispersa” (LEVY, 1999, p. 16).
Como não poderia ser diferente, esse novo contexto está provocando uma revolução na forma de fazer a educação. A velocidade de renovação do saber e a sua abrangência aumentam exponencialmente. Não mais se pode ter a pretensão de se dominar um dado conhecimento. Tudo está aberto e em constante mutação. Hoje, o importante não é dominar o conhecimento, mas sim dominar o desconhecimento (BEIRÃO, 2011). A qualidade que se exige do profissional, do discente, do docente, do cidadão, do cientista, do político não mais é apenas o conhecimento adquirido, mais sim a capacidade de adequar-se à realidade, de encontrar sempre novas soluções aos sempre novos problemas, de renovar os saberes que, num instante, tornam-se obsoletos. Não há mais o conhecido, mas o sempre renovado desconhecido. Assim, a nova educação não pode adotar modelos ultrapassados, não dialógicos, não interativos. O saber não mais é repassado, é agora reconstruído, no território privilegiado do ciberespaço. O professor não é mais apenas aquele que sabe, mas sim o “animador da inteligência coletiva” (LEVY, 1999). Seu papel não mais é repassar o conhecimento, mas criar um ambiente propício para que os alunos (que não mais são recipientes passivos) recriem o saber que lhes está sendo submetido, não como um produto acabado, mas sim como algo a ser melhorado. Não mais se escala a pirâmide do saber. Agora, navega-se, surfa-se nas imprevisíveis e tortuosas ondas do conhecimento. E tudo isso é possível graças ao ambiente naturalmente interativo do ciberespaço.
Ademais, destaca-se o fato de que o ciberespaço propicia recursos educacionais consideráveis, a custos –– se comparados aos benefícios –– irrisórios. As simulações são claro exemplo disso. Um simulador de voo permite que se capacite um piloto, com eficácia, sem se despender vultosos recursos com a utilização de aeronaves. Os hipertextos virtuais são bibliotecas imensas, mantidas sem que seja necessário ocupar grandes espaços, alocar vultosos recursos para imprimir o material necessário e coordenar a ação de numerosos bibliotecários e funcionários, necessários à manutenção eficiente de toda infraestrutura inafastável. Os fóruns (assíncronos) e os espaços destinados aosbate-papos (síncronos) são salas de aula sem limitação de tempo e espaço, coordenadas não por professores, mas sim por animadores de Inteligência coletiva, que “dão conta” de um público mais numeroso, com melhores resultados.
Pelo exposto, observa-se que o ciberespaço, condicionado pela evolução das técnicas de comunicação, possibilitou o surgimento da cibercultura. E essa, sendo uma nova forma de produzir cultura, forçosamente acarreta a mudança no modo de fazer educação, que passa –– numa palavra –– a abarcar um número cada vez maior de pessoas (universalidade), dando espaço para que todos sejam não apenas recipientes e/ou reprodutores de saber, mas sim co-construtores do conhecimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BEIRÃO, Paulo Sérgio Lacerda. A importância da iniciação científica para o aluno de graduação. Coordenação de Pesquisa ─ PROPEX/UFCG. Campina Grande, 2011.
LEVY, Pierre. Cibercultura. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 1999.
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